quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pasto

Agora, aquelas duas desconhecidas vão se sentar na minha mesa. Terei que comer ouvindo a conversa alheia. Nada mais desinteressante do que a vidinha dessas assalariadas de classe média. Tudo padronizado, regrado, consumido e consumado. Horrível!


É, já estou arrependido. Não sei explicar, mas às vezes tenho uma recaída e frequento lugares repletos de trabalhadores e estudantes. Aliás, recaída é boa! Nunca fui pobre, assalariado ou classe média! Mas, enfim, quando dou por mim, estou numa dessas praças de alimentar cão que copiam o refeitório do exército de países de terceiro mundo comendo uma deprimente macarronada química. Como se eu precisasse vir a esses ambientes sujos e barulhentos, para ter um choque de realidade e ver o abismo colossal que há entre mim e os shoppings. É muita mediocridade!


De um lado, aqueles que pensam que são ricos. Recebem um tostãozinho no começo do mês, do patrão ou do governo, compram bobagens como carro, celular, roupa, e vão seguindo adiante, sem rumo. Doutro lado, aqueles que pensam que são inteligentes, vão aos cinemas, ao teatro, à papelaria, estudam numa universidadezinha pública qualquer, talvez a quingentésima do mundo, suspiram nomes de diretores e artistas, se embebedam nos finais de semana, pra fazerem tudo de novo, sempre, o ano inteiro.


Eu não tive paciência para universidades, cursos superiores, esse rol de formações profissionalizantes ou imbecilizantes. Suportei um ano de filosofia. Oscilei entre professores superficiais e incapazes de se comunicar, colegas fumantes e viajantes, entre o inútil e o obsoleto. Preferi continuar vivendo por prazer, lendo para saciar minha sede interior, e nada mais. Claro que nunca cogitei de uma formação profissionalizante, como direito ou letras. Não preciso disso. Nem disto aqui, este coletivo de desajustados seriados!


Sou muito rico. Poderia comprar o Frei Caneca inteiro se quisesse. Poderia derrubar esta porcaria e construir um poço de petróleo. Jogar dinheiro ao ar. E nada mudaria em meu patrimônio. Mas não gosto de lidar com a moeda, não gosto de comprar ações, imóveis ou  empresas aéreas. Prefiro apenas levar a vida. Um dia aqui, outro em qualquer lugar do mundo que tenha cidades. Pois não tolero essa coisa de voltar às árvores e viver na natureza, matando mosquitos e passando frio. Prefiro as cidades, as grandes, as metrópoles. Para ficar sozinho com mais tranquilidade.


Falando nela, a minha acaba agora. Felizmente não sou o tipo dessas siliconizadas anônimas. Não me visto bem. Não ligo para pedaços de pano. Pareço pobre. Elas nem pediram licença para ocupar metade da minha mesa. Falarão de suas bobagens cotidianas e nem notarão minha presença. Serei obrigado a ouvi-las. Daqui, vou para a farmácia. Talvez precise de um antiácido mais tarde.

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